Saturday, 19 May 2012
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A vida nunca é dura na Praia Mole

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0012-1Na estrada que corta a Praia Mole, na costa leste da Ilha de Santa Catarina, em Florianópolis, há uma escadaria. Cerca de 30 degraus e uma tranquilidade perturbadora numa descida que vai culminar, antes da areia, num mirante, o lugar perfeito para ver toda a costa e pensar na vida. Na Vida, na Ulli e nas outras três amigas alemãs que se espalham pela areia bem na minha frente. Antes de qualquer outro predicado, e são vários, a Praia Mole exibe, ao longo de seus breves 960 metros, as mulheres mais bonitas do litoral brasileiro. Nativas, gaúchas, paulistanas, chilenas, americanas e especialmente europeias, que fizeram daquela uma praia para chamar de sua. Nos 1 873 passos que você vai gastar para atravessá-la, da Ponta do Gravatá ao costão que leva à Praia da Galheta (onde o naturismo é permitido), bundas, peitos, curvas e tatuagens que beiram a perfeição hão de iluminar seu caminho. Pergunte a qualquer musa local algo banal, como as horas ou a previsão do tempo. Quando ela for simpática e responder, e elas invariavelmente o são, você esquecerá Leonard Cohen e Bryan Ferry. A única citação que virá à cabeça é: “Quando Deus te desenhou, princesa, ele tava namorando”. Definitivamente.

As nativas dividem democraticamente o espaço na areia com as estrangeiras. “As gaúchas foram as primeiras a ocupar a praia, mas hoje as europeias são maioria. Vêm muitas italianas e, principalmente, portuguesas”, garante Ari Santos, ou Ari Maravilha, como é conhecido, com a autoridade de quem comanda uma loja de biquínis anexa aos quiosques. Basta uma volta ao redor para perceber que a Praia Mole é um dos lugares do mundo onde a globalização deu certo. Ellen, uma deliciosa sueca de 31 anos, sai do mar esbaforida e desabafa: “Todas as garotas aqui parecem supermodelos!” E Ellen, registre-se, não deixa nada a dever a suas melhores companheiras de areia. Alguns estrangeiros ficam tão encantados que se mudam para lá, como o californiano Chris Packard, de 33 anos, que trocou São Francisco pela Praia Mole no ano passado. Quando pergunto se as mulheres mais bonitas estão mesmo ali, o gringo, largadão na praia em plena quinta-feira, se anima: “Eu totalmente concordo!”

Belas mulheres na praia moleEm uma tarde por lá, qualquer um há de “totalmente concordar”. Num canto da praia, sem alarde, Natália Casassola, capa da PLAYBOY em julho de 2008, expõe as belas costas ao sol sem ser incomodada. “A Mole é a melhor praia da ilha”, garante a gaúcha. No dia seguinte, Pinho Menezes, sócio da Barraca do Mole, o quiosque mais animado da praia, atende ao celular e avisa: “Vou buscar a Mari”. A Mari, no caso, é Maryeva, capa da PLAYBOY em julho de 2003. Qual foi a última vez que você esteve numa praia em que duas capas da PLAYBOY se bronzeavam?

Há explicação para essa concentração de delícias em menos de 1 quilômetro? “A Mole sempre foi conhecida na ilha como a praia das mulheres bonitas”, lembra Mario Costa Júnior, dono do site Guia Floripa e conselheiro do Florianópolis Convention & Visitors Bureau. “Quando uma menina está um pouco mais gordinha, é comum dizer que não pode ir à Praia Mole”, conclui. “Mulheres gostam de lugares com alto grau de sensibilidade, e a Praia Mole inspira isso, tem um clima de sensualidade que é só dela”, diz César Augusto Silva, o Cachorrão, dono do quiosque Moenda desde 1984.

Beleza selvagem
Não foi sempre assim. Depois da Joaquina e antes da Barra da Lagoa, a Praia Mole era um lugar selvagem e inabitado até bem pouco tempo atrás. Sua natureza desafiadora encarregou- se de mantê-la assim. O mar é bravo e frio, e a areia, dura, difícil de andar – o nome inclusive vem do efeito que as pisadas causam, que os pescadores chamam de “chão mole”. “O pessoal tinha medo da areia fofa, que afundava”, lembra Pinho Menezes. “A praia tinha as ondas mais furiosas, e a prefeitura não se responsabilizava por quem fosse para lá”, recorda Cachorrão. Os primeiros a ocupar a Mole, em meados dos anos 1980, foram os surfistas. Em parte porque o mar ali sempre foi favorável ao surfe. Mas principalmente porque a Joaquina começou a ficar famosa demais – e cheia demais. Com eles vieram as gatinhas, os praticantes de outros esportes, como voo livre e kitesurfe, mais gatinhas e a fama de ser lugar de gente bonita e saudável. Antes do pessoal do surfe, poucos haviam se aventurado. Um deles foi Augusto Luiz Gonzaga, que ganhou do pai o terreno onde está a pousada da família. “Era nossa casa de praia. Só em 1986 meu pai construiu as primeiras cabanas para alugar no verão”, conta Luiz Augusto, um dos filhos, que hoje cuida do Praia Mole Eco Village. Outro pioneiro foi o jornalista Manoel Menezes, que se aposentou e foi morar lá e hoje dá nome à rodovia que passa à beira da praia. No fim dos anos 1970, seu filho Cacau, agora colunista do Diário Catarinense e da TV RBS, esteve no primeiro campeonato de surfe na praia. “Na Joaquina não deu onda, então transferiram para a Mole, o que era uma loucura na época porque não tinha nem como chegar lá”, lembra. O campeonato se chamou Rock, Surfe e Brotos: surfe de dia, rock à noite e brotos por todos os lados. Todos se divertiram até o delegado dar uma busca atrás de entorpecentes – e encontrá-los aos montes. “Em 5 minutos a cadeia estava cheia”, lembra Cacau, para quem a Mole sempre foi um forte cenário da cidade. Em 1979, o jornalista Airton Seligman, diretor da MEN’S HEALTH, veio de carona de Porto Alegre e atravessou a Mole para acampar com a namorada na Praia da Galheta. “Era completamente deserta”, recorda.

Mulheres na praia Mole em Santa CatarinaPor causa dos surfistas, a Mole cresceu e apareceu. “Era uma praia que já tinha um diferencial”, lembra Gilmar Knaesel, que a frequentou em seus tempos de estudante e hoje é secretário de Turismo, Cultura e Esporte do estado. Em dezembro de 1987, a revista VEJA já a destacava como “reduto de surfistas e iniciados nos segredos do mar”. Em setembro de 1994, aqui na PLAYBOY, o surfista catarinense Teco Padaratz dava a dica: “O lugar onde tudo se encaixa – ondas ótimas, quiosque legal para bebericar e muita mulher bonita – é a Praia Mole”. Pouca coisa mudou. Principalmente porque a Mole fica em área de preservação onde não se pode construir mais, o que impediu de se tornar só mais uma praia. E sua vocação é diurna. Até os salva-vidas vão embora às 8 da noite – e têm algum trabalho com banhistas desavisados que ignoram a fúria da correnteza. O posto policial permanece vazio. Talvez porque o único delito que se cometa ali seja a cobiça às alheias, inevitável em alguns momentos. A baladação mais próxima fica na Lagoa da Conceição, longe o bastante para não tirar a paz local.

Não tem night, mas também não tem tempo ruim. Quando chove, as mocinhas se apertam entre espreguiçadeiras e bangalôs. No quiosque Oculto, o lance são misturas exóticas, como o Verão Mágico (mangas doces, morango e iogurte light; 8 reais). Na Barraca do Mole, as princesinhas pedem o drink Madonna (vodca Absolut, espumante e morango; 15 reais) ou vão de Veuve Clicquot (280 reais). No Aragua, peça sucos especiais, como o Paixão (abacaxi, uva, morango, hortelã e chocolate gelado; 5,50 reais). E o Bar do Deca, importante frisar, é um point GLS internacionalmente famoso. “A Mole mistura as tribos numa boa”, garante Leandro Adegas, sócio do Oculto.

“Morei em Ibiza, estive em Saint-Tropez e garanto: não existe no mundo praia mais bonita que a Mole”, decreta Ari Maravilha, cuja Loja da Mole, além de biquínis, vende camisetas com a frase: “A vida é dura, mas a Praia é Mole”.

Não é verdade. A vida nunca é dura na Praia Mole.

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Comentários

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